Cálcio e saúde
Franciele Minotto
Cálcio é nutriente essencial para todas as células vivas, aproximadamente 99% do cálcio corporal está depositado nos ossos.
Cálcio, fósforo e magnésio são os minerais mais importantes dos ossos, sendo o cálcio, o mais abundante.
Assim, o esqueleto adulto contém em média 1.200 g de cálcio na forma de hidroxiapatita, uma estrutura cristalina inorgânica composta de cálcio e fósforo [Ca10(PO4)6(OH)2], responsável pela rigidez óssea.
A mineralização óssea depende de disponibilidade de cálcio, fósforo e vitamina D. Adequada ingestão de cálcio é um dos fatores importantes para aquisição de massa óssea e pico de massa óssea. Assim, dietas contendo quantidades insuficientes de cálcio podem levar a baixa densidade óssea, levando a implicações como risco de osteoporose ao longo da vida.
O equilíbrio de cálcio é controlado pelos rins, ossos e trato gastrintestinal. O hormônio PTH (paratormônio) produzido pelas glândulas paratireóides está diretamente relacionado com o equilíbrio de cálcio e fosfato; através dele, aumento da concentração plasmática de fosfato poderia prevenir a reabsorção do cálcio ósseo, sendo o fosfato promotor da deposição de ambos, cálcio e fosfato no osso.
A ingestão nutricional diária recomendada para adultos maiores de 19 anos é de 700 mg/dia, no entanto, quantidades maiores são necessárias durante a infância, adolescência e lactação. Alerta-se que ingestão maior de 1500 mg/dia não é recomendada, pois pode causar dor de estômago (dor epigástrica) e diarréia. A FAO/WHO (Food and Agriculture Organisation/World Health Organization) recomenda que homens entre 19 a 65 anos e mulheres maiores de 19 anos até a menopausa consumam 1000 mg de cálcio por dia e que mulheres na pós-menopausa e homens com mais de 65 anos consumam 1300 mg/dia.
A biodisponibilidade de cálcio é influenciada por alguns alimentos, gorduras reduzem a absorção de cálcio, proteínas e fósforo (também denominado fosfato, pois no intestino liga-se ao oxigênio formando fosfato) aumentam sua absorção. A biodisponibilidade do cálcio do leite e produtos lácteos é de aproximadamente 30% comparado ao espinafre que apesar de ser fonte relativamente grande de cálcio apresenta biodisponibilidade de 5%, isso devido à alta concentração de ácido oxálico o qual inibi a absorção de cálcio. Ácido fítico e ácido urônico também encontrados em alimentos (vegetais) apresentam efeito similar ao ácido oxálico.
A absorção dos diferentes sais de cálcio presentes nos suplementos (fosfato de cálcio, cloreto de cálcio, citrato de cálcio e carbonato de cálcio) é similar a encontrada no leite.
Há evidências de que ingestão de cálcio ao longo da vida pode ajudar na lentificação da perda óssea associada com a idade. Esta evidência é fortemente relacionada a mulheres na pós-menopausa, principalmente nos primeiros 5 a 10 anos após a mesma. No entanto, os benefícios do consumo adicional de cálcio são obtidos em longo prazo. Uma recente revisão observou que o consumo de suplementação de cálcio em mulheres na pós-menopausa reduz o risco de fraturas vertebrais, isso porque a aumento da ingestão de cálcio atua reduzindo a remodelação óssea e minimizando o efeito da elevação do paratormônio (que promove reabsorção óssea) associado com o envelhecimento.
Evidências sugerem que o cálcio pode apresentar papel na etiologia de doenças crônicas, aumento da ingestão de cálcio poderia auxiliar na prevenção de câncer coloretal, assim como evidências preliminares relacionam-no com o controle de peso. Evidência moderadamente consistente sugere que ingestão maior de 1000 mg de cálcio por dia pode reduzir o risco de câncer coloretal entre 15 a 40%.
Suplementação de cálcio tem demonstrado efeitos benéficos na massa óssea de crianças e adolescentes, sugerindo que a densidade mineral óssea pode mudar de 1 a 5% durante a suplementação dependendo do local avaliado.
Normalmente entre 20 a 30% do cálcio consumido é absorvido pelo trato gastrintestinal (variando individualmente entre 10 e 50%). A absorção se dá principalmente no intestino delgado necessitando de ambiente ácido. A maioria do cálcio está na forma de complexos, assim, no estômago ocorre solubilização e no intestino absorção, sendo a biodisponibilidade influenciada pela acidez do meio intestinal. Nutrientes que promovem acidificação do meio seriam: enxofre, fósforo e cloreto.
A maioria do cálcio é excretado na urina e fezes. A quantidade de cálcio reabsorvido após passar pelo túbulo renal depende da idade (reduz a reabsorção em idosos), gênero (homem≠mulher), níveis hormonais, consumo de sódio, cálcio e fósforo. Em condições normais, 97% do cálcio que passa pelos túbulos renais é reabsorvido.
A presença de fósforo pode minimizar as perdas urinárias de cálcio, assim, concentração deficiente de fósforo no plasma (sangue) pode levar a aumento da excreção urinária de cálcio.
Em relação ao mito que envolve o cálcio como responsável pelos cálculos renais, observa-se que a maioria dos cálculos renais contém cálcio (como oxalato de cálcio, fosfato de cálcio ou ambos). No entanto, recente teoria relata que a formação de cálculo urinário é iniciada por uma doença nanobacteriana. Nanobactérias são pequenas bactérias intracelulares que tem um envelope de fosfato de cálcio, 97% dos cálculos apresentam a nanobactéria, assim, a presença da nanobactéria no rim inicia a formação do cálculo.
Desta forma, a ingestão de quantidade elevada de cálcio não é por ela mesma uma causa da formação de cálculos renais e, além disso, restrição de ingestão de cálcio pode aumentar o risco de formação de cálculo pois a baixa ingestão de cálcio é associada com aumento da excreção de oxalato (fator de risco para formação de cálculo renal).
Referência Bibliográfica:
Theobald HE. Dietary calcium and health. British Nutrition Foundation Nutrition Bulletin 2005; 30: 237-277.
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