Afinal, o que é amar alguém? Existe
alma gêmea?
por Carlos Hilsdorf
O amor é um dos maiores temas de todas as épocas, sobre ele muito se escreveu e
se escreverá. As abordagens vão desde o romantismo adolescente e apaixonado,
passam pela cumplicidade madura dos casais mais experientes e, não raro, pelo
divã dos psicanalistas.
Palavras e conceitos são bem diferentes. A maioria das nossas confusões afetivas
parte da nossa incompreensão e da nossa inexatidão com respeito aos conceitos.
"Um bom indicador da veracidade de nosso amor por alguém é o quanto ele nos
transforma, o quanto cedemos, vencendo o nosso egoísmo e narcisismo e evoluindo
para vivê-lo intensamente"
Afinal o que é o amor? Como é o amor? Existe realmente uma única definição para
um tema tão complexo ou estamos reféns do relativismo? E, então, haverá tantas
definições de amor quantas pessoas neste planeta?
Longe de desenvolver complicadas teses filosóficas a este respeito, sejamos
práticos, vamos primeiro definir o objeto do nosso amor: ele está centrado em
nós, no outro, ou em um tipo especial de relação entre nós e o outro?
Será que encontrei, de fato, o amor de minha vida?
Todos os dias você encontrará pessoas reclamando que não encontraram o grande
amor de suas vidas. Não encontraram? Não procuraram? Não sabiam o que estavam
procurando? Encontraram e não reconheceram? Encontraram e não souberam
valorizar?
Na vida, você não encontra o que procura, apenas o que está preparado para
encontrar.
Muitas pessoas se queixam da ausência do par ideal, mas não percebem que estão
vivendo a ilusão da busca da sua outra metade e que, por conseqüência, se sentem
divididos ao meio, seres incompletos em busca de alguém que os complete.
Buscar a outra metade significa delegar para outra pessoa a difícil missão de te
fazer feliz e de suprir faltas que sua personalidade apresenta e que só podem
ser supridas por você.
Seres humanos sempre serão “metades” diferentes que juntas não formarão uma
unidade, mesmo nos casos de amor mais lindos e perfeitos que você conheça.
Quando duas pessoas “inteiras” se encontram podem ser felizes, já duas
metades...
Vale o conselho em tom de ironia e brincadeira: “Se você quer ser feliz, não
case; mas se quiser fazer alguém feliz, então case, pois duas pessoas com esta
filosofia contribuirão uma com a felicidade da outra”.
União, expansão e crescimento
O desejo de união amorosa é mais lúcido se for um desejo de expansão e
crescimento, de compartilhar universos diferentes em alguns aspectos,
semelhantes em outros, mas onde a busca pela semelhança total ou a convivência
com diferença plena seriam tolices.
Ninguém é responsável pela nossa felicidade e nem nós pela de ninguém, mas somos
todos co-responsáveis por participar na construção da felicidade uns dos outros.
Entregar a outra pessoa “o fardo” de fazer você feliz é eximir-se da
responsabilidade sobre suas próprias emoções, sentimentos e escolhas e assumir o
confortável papel de vítima. Afinal, se não der certo, a culpa é do outro que
falhou em te fazer feliz.
Esse comportamento de fazer com que o outro se responsabilize por nossa
felicidade caracteriza egoísmo, vaidade e narcisismo, pois parte do pressuposto
que nós somos muito importantes, a tal ponto que o outro tenha a “obrigação” de
nos fazer feliz. A pergunta é: Isso é amor pelo outro ou apenas por si mesmo?
Os dois casos mais freqüentes nos relacionamentos amorosos são sempre os das
pessoas que se apaixonam pelo “espelho” (alguém extremamente parecido com ela) e
o daqueles que se apaixonam pelo seu oposto - alguém totalmente diferente dela.
No primeiro caso a pessoa não se dá conta que está procurando a confortável,
porém, tola posição de não ter que aprender ou se adaptar a nada, afinal vive
com uma cópia de si mesmo, seja real ou submissa.
No segundo caso, não se dá conta que está procurando alguém que compense as
áreas não trabalhadas da sua personalidade e das suas competências sociais,
transferindo ao outro tudo aquilo que tem dificuldade em fazer. Em ambos os
casos, observamos um nítido egoísmo de face facilmente reconhecível: o
narcisismo.
Como eternizou Caetano, “narciso acha feio o que não é espelho”.
Sejam quais forem os caminhos escolhidos para falar do amor (paixão é outro
tema) perceberemos que amor é legitimamente um sentimento que parte de nós em
direção ao outro e não algo que esperamos parta do outro em relação a nós.
O desejo de amor está ligado ao desejo de expansão, à presença simultânea das
semelhanças e diferenças. O sentimento de amor mais legítimo que podemos
conceber parte sempre de uma doação sem necessidade de submissão; de tolerância
sem necessidade de omissão; de compartilhar sem necessidade de auto-abandono.
Amar é somar, multiplicar e dividir, nunca subtrair.
Amar continua sendo a maior aventura e o maior desafio da espécie humana!
Por isso, um bom indicador da veracidade de nosso amor por alguém é o quanto ele
nos transforma, o quanto cedemos, vencendo o nosso egoísmo e narcisismo e
evoluindo para vivê-lo intensamente.
F.M.- Todos direitos reservados, 2007-2010.